Histórias com a Professora Vera

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De:

Professora Nair Costa Muls (irmã de Vera Costa Gissoni)

VERA COSTA GISSONI: a irmã, a amiga e a chefe

Não é fácil falar sobre a Verinha. A saudade, ainda grande e dolorida, dificulta.

A pequena Vera

A pequena Vera

Crescemos juntas, num ambiente de perda (nossa mãe faleceu em 1940, em consequência de uma pneumonia e de parto) e de muita insegurança afetiva. Isso nos tornou ─ as quatro irmãs ─ muito ligadas. Juntas, enfrentávamos o mundo e a vida. Essa união, essa cumplicidade, e sobretudo o afeto que cimentava a nossa existência infantil e depois adolescente, cresceu com o tempo, se solidificou com os anos e com a maturidade enfim alcançada. Sempre fomos muito unidas, amigas, companheiras: Nair, Vera, Lúcia e Rachel. Quarteto enriquecido com Costinha e Luiz Carlos, irmãos também muito queridos, filhos do segundo casamento de nosso pai, com Dalva Motta Costa.

As meninas Costa

As meninas Costa

Creio que o mais importante a ressaltar nessa minha relação com a Verinha é o fato de a gente ter sido muito mais do que irmãs. Irmãs amigas. Total liberdade e confiança mútua marcavam as nossas relações. Sobretudo nos últimos anos. Parece que a gente foi amadurecendo essa relação, que ganhou outra dimensão. Tudo podia ser dito, tudo podia ser compartilhado, sabendo-se respeitar o espaço da outra, reconhecendo o momento de ficar calada, somando alegrias e dividindo tristezas, decepções e dores; de uma imensa generosidade muito nos ajudou a todos, irmãs e sobrinhos, não só com conselhos e orientações, mas também financeiramente. Fazíamos projetos para o futuro: ela não podia passar sem as viagens, das quais ela tanto gostava. E que tinham o dom de rejuvenecê-la e de lhe dar novo alento. Paris, Bruxelas, Brugges, Madrid, Barcelona, Granada, Múrcia, Berlim, Praga, Estônia, Lituânia, Riga, Budapest, Itália e finalmente Sicília. A lembrança desses lugares estará para sempre marcada pela companhia alegre, carinhosa, generosa e inteligente da Verinha.

Vera não podia passar sem as viagens, das quais ela tanto gostava

Vera não podia passar sem as viagens, das quais ela tanto gostava

Irmã-amiga, amiga-irmã, que foi também chefe. Uma chefona exigente, às vezes dura, mas que sabia diferenciar as coisas e que não admitia erros ou desvios, sabendo também ser justa e respeitosa das posições divergentes das dela, quando eram sólidas e bem fundamentadas. O caminho da Castelo Branco estava acima de tudo. Nos quinze anos em que estivemos juntas na direção da universidade ─ eu, num primeiro momento colaborando com o Projeto da Universidade Castelo Branco a ser enviado ao MEC, e aprovado em fins de 1994 e posteriormente, já aposentada pela UFMG, como Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação e presidente do IPEZO-Instituto de Pesquisas da Zona Oeste ─ pude acompanhar os seus esforços, a sua dedicação, a sua competência e a sua firmeza.

O mais importante é que ela deixou um grande legado: a sua concepção de educação. A educação como essencial à formação, à qualificação e ao pleno desabrochar de todas as potencialidades de cada ser humano. A professora Vera Gissoni tinha uma visão clara da importância da educação como prática social que pode possibilitar a emancipação do ser humano, sua formação como sujeito da história capaz de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e mais desenvolvida. Assim, confrontada com a realidade sócio-econômica da Zona Oeste, naqueles idos dos anos cinquenta, quando chegou ao Rio com o marido e os filhos, teve a iluminação e a sorte de poder se dedicar à educação. A pequena escola primária situada num bairro distante do centro do Realengo foi crescendo e se ampliando, para melhor atender as necessidades da comunidade: de escola primária na rua Ocaibi, para colégio na rua Tecobé, em 1963; de colégio para faculdade na av. Santa Cruz, em 1973. De faculdades integradas para universidade, em fins de 1994. Foi um trabalho duro, que passou pela visita às centenas de famílias do bairro, incentivando os pais a mandar os filhos para a escola, mostrando a importância da educação para o futuro da criançada. Que passou pelo esforço de angariar recursos para a merenda da meninada, quando percebeu que eles não se alimentavam bem. Foram anos e anos de luta, de sacrifícios, de dificuldades, de duro aprendizado, de estreito contato com a comunidade, de aprofundamento do conhecimento das necessidades da Zona Oeste, de consolidação do seu compromisso com o desenvolvimento sócio-econômico e cultural da região. Objetivos que lhe exigiram também anos e anos de formação constante, continuada (graduação em Pedagogia, gestão universitária, mestrado em Educação e outros, no Brasil e no exterior) num esforço feito ao lado das obrigações e compromissos ligados ao cargo de diretora e ao seu papel de mãe. A vida familiar foi afetada, pois a sobrevivência estava obrigatoriamente em primeiro lugar, assim como o sucesso do empreendimento.

Apesar de todos os percalços e dificuldades a Universidade Castelo Branco, sob sua direção, cresceu em qualidade e consistência. Buscou cobrir o ensino fundamental e médio, abriu espaço para as novas tecnologias de ensino, defendeu e consolidou o seu ensino à distância. Consolidou também o papel do ensino superior na Zona Oeste; fortaleceu a pesquisa e estimulou o foco na Zona Oeste, ampliou seus programas de formação continuada, através da pós-graduação e consolidou seus programas sociais de extensão, contemplando o compromisso ─ enquanto universidade─ de real inserção na sociedade da qual faz parte, possibilitando, de modo objetivo, o confronto entre a teoria e a pratica, o compartillhamento entre o saber científico e o saber popular, o enriquecimento da formação acadêmica de seus professores assim como a formação mais adequada de seus alunos, futuros profissionais.

Na defesa dos interesses do ensino superior particular de qualidade foi uma das inspiradoras e criadoras da ABMES – Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior, em 1982. Ao longo de sua vida profissional, à frente da Castelo Branco e na direção da ABMES, foi inúmeras vezes agraciada, em reconhecimento de sua capacidade, competência e seriedade profissional. Entre essas honrarias, ganhou o Premio de Mulher Mais Influente na Área da Educação, concedido pela Revista FORBES.

A mulher mais influente do Brasil

A mulher mais influente do Brasil

Muitas outras coisas me vêm à cabeça e ao coração. Mas o importante mesmo é que ela foi sempre uma guerreira, um espírito visionário e empreendedor. Sem, contudo, perder a ternura. Persistente, conseguiu o que queria e nos deixou uma magnífica lembrança. E um extraordinário legado.

Vera ao lado das irmãs Nair e Lúcia, na noite da cerimônia de entrega da Medalha Pedro Ernesto à Professora Vera, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro

Vera ao lado das irmãs Nair e Lúcia, na noite da cerimônia de entrega da Medalha Pedro Ernesto à Professora Vera, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro

A sua morte foi um baque para todos nós. Criou um vazio. Por mais que a gente saiba que a morte pertence à vida e representa uma libertação, a travessia necessária de um patamar de vida a outro, mais alto e mais complexo da vida. Por mais que a gente saiba que a morte biológica apenas encerra a trajetória terrestre da aventura humana abrindo caminho para a vida eterna, nos conduzindo à Fonte de toda vida. Foi e está sendo duro perdê-la. Sentimos diariamente a sua ausência e a sua falta. Nas mínimas e nas grandes coisas...

Mas sabemos, e queremos acreditar, que Deus a recebeu em seus braços e que ela está em paz e na luz. E que ela será, para todos nós, sobretudo para seus filhos e para a Castelo Branco, uma força e uma luz a mais a nos guiar e a nos proteger. É o que nos consola.

Belo Horizonte, 14 de novembro de 2015.

De:

Prof. Mauricio Ferreira Magalhães

No dia em que perdemos a nossa grande sonhadora, profª. Vera Costa Gissoni. Sim, uma sonhadora, mas que concretizava suas obras, fazia seus colaboradores realizarem!

Enquanto trabalhava, fazia todos se movimentarem, ninguém poderia ficar apático próximo a ela. Todos afirmavam que sua capacidade de fazer acontecer era algo singular. Nem sempre pelos caminhos mais fáceis, práticos ou lógicos, mas simplesmente as coisas aconteciam. Quem a conhecia se perguntava sempre de onde vinha tanta energia para colocar em práticas todos seus pensamentos.

Para muitas pessoas sonhar já é o suficiente para suas vidas, mas para a profª. Vera transformava os dela em realidade. Com muita luta, determinação, iniciativa, estratégia e principalmente AMOR pelo que fazia, tinha uma verdadeira obsessão em fazer da Educação a mola de transformação da sua realidade e do seu entorno.

E essa foi a concretização do seu maior sonho, a Castelo Branco. Muitas famílias cresceram compartilhando desse sonho e transforaram suas realidades de vida através da Castelo.

Tive o prazer e a oportunidade de conviver com a professora por vinte oito anos e posso afirmar que perdemos uma grande mestre: "Aquela que comanda, que ensina, que inicia uma escola, que tem grande importância, que é exemplo, que empreende, que lidera, enfim...". Certamente sempre vivos, num patamar de excelência entre as instituições de ensino! Profª Vera, descanse em paz, sentiremos muitas saudades mas, afinal, saudades é o amor que fica.

Texto editado. Original em Folha Universitária Castelo, nº100 Novembro/Dezembro 2014.

De:

Vanísia da Silva

"A gente já podia sentir na professora Vera essa vontade de crescer, de ir mais longe. E a verdade é que foi ela quem fez Realengo crescer", afirma a amiga de muitos anos, Vanísia da Silva, que a conheceu ainda na escola do Barata, quando era Supervisora Educacional de Escola Particulares.

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